O COMEÇO DE TUDO

José Oliveira de Almeida, nascido em 1938 em Mulungu, um pequeno vilarejo do sertão pernambucano, chegou a São Paulo aos 25 anos. "Trabalhei na roça até a véspera da viagem e a única bagagem que trouxe foram duas camisas, uma calça e um par de calçados, minha mala era um saco e o cadeado era o nó. A viagem durou 8 dias, vim num ônibus caindo aos pedaços e cheguei aqui por sorte. Numa parada no Rio de Janeiro o motorista ao manobrar o ônibus derrubou o muro de uma casa e fugiu me deixando pra trás junto com alguns amigos, a sorte foi que ele enganchou num viaduto e conseguimos alcançá-lo."

Trabalhou em fábrica de laticínios, metalúrgica, fundição, na feira e por último em uma malharia. Chegou a dividir um quarto de pensão com mais 8 pessoas. Até que em 1973, em sociedade com dois irmãos, montou a "Casa do Norte Irmãos Almeida" na Vila Aurora. E depois de um ano, montou seu próprio bar na Vila Medeiros.

Aí começou a história de sucesso do nosso caldo de mocotó. As pessoas se acotovelavam para entrar no Mocotó e tomar a iguaria, além de comprar produtos típicos como carne seca, farinha de mandioca, rapadura, bolachas e queijos nordestinos. Com o passar do tempo o pequeno bar não comportava mais a clientela. E em 1979 montamos a nossa "filial", bem em frente à matriz. Até que em 1994, encerramos a atividade de empório da antiga Casa do Norte para nos dedicar apenas às refeições.

Ainda hoje, o "Seu Zé Almeida" vai ao Mocotó, atende clientes, lava pratos, orienta os cozinheiros e cria novas receitas. Ele é conhecido por seu coração de ouro, sempre pensando nos outros antes de si mesmo. Tem como lema a simplicidade e o trabalho.

E é desse modo que ele conquista o respeito de todos. Com a firmeza de quem já passou por muitas dificuldades, ele é exemplo de conduta e retidão de caráter. Mesmo assim, não é tratado como patrão, pois não trata ninguém como empregado. Tem por todos o cuidado que se tem por um filho, por isso, para nós não há figura que melhor o represente que a figura de um pai.

UM NOVO COMEÇO

No comando do restaurante desde 2004, o paulistano Rodrigo Oliveira é o responsável pelo novo momento do Mocotó. Filho de Seu Zé Almeida, aos 13 anos já ajudava no armazém. Lavou pratos, limpou banheiros, atendeu mesas e tudo o mais que se pode fazer num restaurante.

Mas como Seu Zé queria ver os filhos formados, Rodrigo tratou de estudar Engenharia Ambiental. Mas foi só o pai ir a Pernambuco para cuidar do sítio que tem lá no sertão, pro rapaz largar a faculdade e correr atrás do seu sonho. Madrugadas adentro com pedreiros, encanadores e eletricistas e o boteco foi se ajeitando.

Quando o pai voltou, tomou um susto. E o filho uma bronca. Mas com a certeza de que estava no caminho correto, Rodrigo foi em frente. Aborrecido com os puxões de orelha do patrão, voltou a estudar, mas claro, sem abandonar o serviço. E por ironia do destino, na faculdade ficou amigo de um sujeito que cursava Gastronomia. “Que será isso?”.

Lendo tudo o que podia e fazendo as primeiras visitas a restaurantes, não teve dúvidas, “É isso aí, Gastronomia!”. Na faculdade teve contato com grandes cozinhas do mundo, ingredientes diferentes e novas técnicas. Para complementar a formação, foi estagiar com grandes chefs da cidade. Para conhecer melhor as origens da sua cozinha, visitou restaurantes, mercados e feiras livres do Nordeste. Para desvendar os segredos de uma paixão, rodou quase 30 mil quilômetros pelo Brasil em busca de cachaças.

Com a humildade e o gosto pelo trabalho herdados do pai, Rodrigo e sua comida estão conquistando o mundo. Gente de diversas partes do globo vem provar suas iguarias e espalhar a notícia. Democraticamente, pessoas de diversas tribos e classes sociais dividem-se entre as mesas e o balcão. Esse é o espírito da casa.

Nas palavras do chef, a receita do sucesso: “Temos orgulho do nosso trabalho e dessa repercussão, mas não nos deslumbramos. A receita para manter uma casa por tanto tempo tem dois ingredientes: boa comida e hospitalidade. Mesmo parecendo simples, é algo que só se consegue com muita dedicação, talento e, acima de tudo, paixão”. 

Tal pai, tal filho!

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